patologias em paredes de concreto

O sistema parede de concreto representa uma alternativa bastante industrializada de um sistema construtivo. Ele tem como característica básica a de permitir uma obra de grande velocidade e repetitividade, com a utilização intensiva de fôrmas mano portáveis, que permitem a execução de duas a quatro unidades habitacionais por dia.

Com esta velocidade construtiva, é extremamente importante termos uma obra muito bem planejada e executada, pois não há tempo para ficar pensando em soluções pontuais para problemas localizados ou modificar o processo construtivo durante a execução. Tudo precisa funcionar perfeitamente, de modo a se evitar qualquer desvio que possa originar reparos e retrabalhos.

 

ESPECIFICAÇÃO DO CONCRETO

Uma das grandes preocupações do sistema é a possibilidade de fissuração. O sistema parede de concreto apresenta uma estrutura muito rígida, com alta restrição à variação volumétrica. É uma estrutura que gera altas tensões quando submetida à imposição de deformações, como a retração.

A retração é um fenômeno intrínseco ao material concreto. Ela tem diferentes causas:

  • Retração plástica inicial, por perda de água com o concreto ainda não endurecido
  • Retração química, pelo menor volume dos cristais formados na reação do cimento
  • Retração hidráulica (ou secagem), pela perda de água quando já endurecido

Por isso, devemos dar muita atenção a todo o processo desde o seu planejamento, passando por um bom projeto e execução, com especial atenção ao concreto. Temos que ter uma boa especificação do material nos projetos, um estudo de dosagem detalhado e ensaios de pré caracterização para confirmar se teremos no dia a dia da obra o material que imaginamos. Exemplo de especificação de concreto pode ser encontrado no Quadro 1.

Quadro 1 – ESPECIFICAÇÃO DO CONCRETO “PAREDE-LAJE”

Por que ocorrem retrações

Quando não tomamos todos os cuidados necessários, pode ocorrer uma retração acima do normal causada por:

  • Concreto autoadensável mal dimensionado, com poucos finos e muita água. É extremamente importante um estudo do traço do concreto por profissional especializado, seja ele da concreteira, laboratório de ensaios ou consultor independente.
Figura 1 – Composição esquemática do concreto, sem e com a presença de agregados finos
  • Falta de cura, causando grande perda de água inicial. Pela rapidez do processo construtivo temos muitas paredes sendo curadas simultaneamente, o que, em princípio, inviabiliza uma cura úmida bem-feita. O ideal é trabalhar com a cura química, observando sempre se há resíduo do produto nas paredes, para não influenciar na aderência do revestimento.
Figura 2 – Aplicação de cura química

Ainda temos mais duas causas mecânicas para o aparecimento de fissuras. São elas:

  • Desforma com muito impacto, provocada pelo uso deficiente do desmoldante ou pela utilização de ferramentas inadequadas para a retirada das fôrmas, principalmente nos cantos de janela e linha de espaçadores (faquetas, gravatas ou cones).
  • Existência de vibrações no terreno nos primeiros dias, causadas, por exemplo, por impactos nas paredes ou terraplanagem com rolo vibratório.

 

Os pontos preferenciais para o aparecimento dessas fissuras são:

  • Paredes muito longas sem junta de controle.
  • Cantos de portas e janelas.

  • Posição de eletrodutos (eletrodutos mal posicionados, com poucos espaçadores, entre tela/eletroduto ou tela/fôrma).
  • Juntas frias (horizontal entre pavimentos, vertical entre concretagens de dias consecutivos e inclinadas entre concretagens de caminhões sucessivos com intervalo após o início de pega).
  • Fissuras no primeiro pavimento devido a restrição de movimentação imposta pela fundação.
  • Fissuras no último pavimento devido a dilatação térmica da laje de cobertura.

O ponto fundamental para diminuir a fissuração é estudar o traço do concreto, com um consumo de finos maior e um fator a/c menor. Adicionalmente deve-se cuidar dos processos de cura e utilizar fibras têxteis para aumentar a resistência à tração nas idades iniciais, quando ainda não temos aderência entre a ferragem e o concreto. Finalmente, podemos pensar na utilização de aditivos compensadores de retração que praticamente zeram a deformação imposta de longo prazo.

As obras que utilizam concreto com traço bem estudado praticamente não apresentam fissuras sistêmicas.

 

PLANEJAMENTO

Nas obras com paredes de concreto, um cuidado especial deve ser dado ao planejamento, com estudos sobre a logística a ser empregada, treinamento de mão de obra de montadores, plano de ataque e plano de controle da qualidade. Com a velocidade da obra, esta organização da produção é essencial.

Baseados nos projetos já devidamente concluídos e compatibilizados, devemos montar um plano de produção detalhado e completo. Nesse momento, é de grande ajuda que os projetos já tenham sido feitos em BIM, facilitando a visualização simultânea, em 3D, de diferentes sistemas e suas interferências.

 

COMPATIBILIZAÇÃO DE PROJETOS

Neste sistema, todas as paredes compõem a estrutura da edificação. Portanto, qualquer elemento embutido ou abertura interfere no funcionamento estrutural. Por isso, o sucesso da construção com paredes de concreto depende da existência de projetos bem compatibilizados. Além de garantir uma estrutura portante, os projetos devem solucionar interferências como inserts, aberturas ou instalações embutidas que geram impacto no caminhamento das cargas da estrutura.

Pelo fato de as paredes serem estruturais, a NBR 16.055:2012 prevê que projetos de fôrmas, de escoramentos, detalhes embutidos ou vazados e os projetos de instalações devam ser validados pelo calculista.

O projeto deve dar atenção especial às instalações elétricas e hidráulicas. No caso das instalações hidráulicas, não podemos colocá-las simplesmente dentro da parede, pois isto não garantiria a sua manutenibilidade, prevista na NBR 15.575.

Não são admitidas tubulações horizontais, exceto em trechos de até um terço do comprimento da parede, não ultrapassando 1 m, desde que este trecho seja considerado não estrutural. Também são proibidas tubulações (verticais ou horizontais) nos encontros de paredes.

A espessura mínima das paredes com altura de até 3 m deve ser de 10 cm. Permite-se espessura de 8 cm apenas para paredes internas de edificações de até dois pavimentos. Paredes com até 15 cm de espessura utilizam uma tela centrada para armação. Já as paredes com mais de 15 cm – assim como qualquer parede sujeita a esforços horizontais ou momentos fletores aplicados – são armadas com duas telas e cobrimentos previstos na NBR 6.118:2014 (projeto de estruturas de concreto).

Quando bem projetada, a parede de concreto com 10 cm de espessura é capaz de atender aos requisitos de desempenho da NBR 15.575. Para assegurar o desempenho acústico, porém, deve-se evitar a colocação de quadros de distribuição em paredes de divisa e principalmente a colocação de caixinhas de elétrica fundo a fundo, o que criaria um túnel de passagem de som de um ambiente para outro.

 

EXECUÇÃO

Tão importante quanto os projetos compatibilizados é a boa execução das paredes. Os principais cuidados nas instalações elétricas se referem ao posicionamento correto e boa vedação do sistema. Devemos lembrar que esses elementos estarão colocados na fôrma quando da concretagem. Portanto, sofrerão a pressão do concreto fresco e eventual adensamento por vibração. Por isso, é necessário utilizar caixinhas elétricas vedadas especiais (alumínio ou plástico) e eletrodutos resistentes e com conexões próprias para evitar a entrada de nata de cimento neles. O posicionamento será dado com a colocação de espaçadores em quantidade apropriada.

Na execução, devemos lembrar também que, devido à velocidade da obra, o planejamento do escoramento residual permanente é fundamental para as deformações do sistema. O projetista de estruturas deve atuar em conjunto com a construtora para estabelecer o esquema de escoramento e as idades de retirada dele.

Por se tratar de uma solução industrializada, o sistema construtivo demanda projetos voltados diretamente à produção. Ou seja, o grau de detalhamento e simplificação deve facilitar o entendimento nas frentes de trabalho.

Para evitar imprevistos e improvisações que afetariam a velocidade e a qualidade da obra, o plano de ataque deve considerar o sistema de fôrmas escolhido. Características como facilidade na montagem e desmontagem, peso por metro quadrado dos painéis e quantidade de peças soltas influenciam diretamente a execução do sistema.

Os ciclos rápidos de execução também exigem que haja uma dinâmica de suprimentos ágil e estruturada, principalmente em relação aos insumos principais: concreto, armações e jogos de fôrmas. A movimentação de materiais, por sua vez, deve ser feita mecanicamente, sempre que possível.

 

PROCEDIMENTOS EXECUTIVOS

 

Se alguma etapa produtiva for executada erroneamente, eventuais patologias podem surgir em escala e o tratamento geralmente custa mais do que a correta execução.

 

 8 VARIÁVEIS QUE INFLUENCIAM OS CICLOS DE PRODUÇÃO

CONTROLE DA QUALIDADE

Cuidados com detalhes de armaduras, escoramento, tolerâncias, cura e manuseio das fôrmas são essenciais para o sucesso do sistema construtivo. A concretagem requer controle tecnológico rigoroso. No estado fresco, os ensaios necessários são:

  • Slump
  • Slump Flow ou espalhamento
  • Massa específica do concreto conforme a ABNT NBR 9833.
  • Moldagem de corpos de prova, conforme a norma ABNT NBR 5738.

Ensaios também devem ser realizados no concreto endurecido, como a análise de corpos de prova moldados durante a concretagem.

 

OPERAÇÃO E MANUTENÇÃO

As paredes e lajes de concreto armado são estruturais. Logo, não podem ser demolidas total ou parcialmente pelo usuário. Isso deve constar de forma clara no Manual de Operação, Uso e Manutenção (Manual do Usuário). Se forem notados pontos de corrosão de armaduras, deve ser providenciado o tratamento adequado, com assistência técnica de engenheiro ou empresa especializada.

 

OS 11 “MANDAMENTOS” DA PAREDE DE CONCRETO MOLDADA NO LOCAL

 

 Documentos de referência

  • ABNT NBR 16.055:2012 – Parede de concreto moldada no local para a construção de edificações – Requisitos e procedimentos
  • ABNT NBR 15.575:2013 – Edificações habitacionais – Desempenho
  • ABNT NBR 15.873:2010 – Coordenação modular para as edificações
  • Normas relacionadas ao controle tecnológico do concreto, como ABNT NBR 5.739:2007 (determinação de fck), ABNT NBR 15.823-2 (espalhamento) e ABNT NBR NM 67:1998 (slump).
  • Diretrizes do Sistema Nacional de Avaliações Técnicas (SINAT) para sistemas não normatizados.

 

Autores

Arnoldo Wendler, engenheiro civil, diretor da Wendler Projetos e Sistemas Estruturais. Coordenou o grupo de estudos da Norma NBR 16.055 (Paredes de Concreto) da ABNT.

Rubens Monge, engenheiro civil. Coordena o Grupo Paredes de Concreto da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP).

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Engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP em 1977 Pós graduação em Engenharia de Estruturas pela Poli-USP Ex-professor da Poli-USP em resistência dos materiais e concreto armado Ministrou matéria de Alvenaria Estrutural da UNICAMP em convênio com a ABCP Diretor da Wendler Projetos e Sistemas Estruturais, em Campinas Coordenador da Norma Brasileira de Paredes de Concreto-NBR16055 Integrante da comissão de revisão da Norma de Alvenaria NBR15961 Coordenador de Alvenaria Estrutural nas comunidades da construção de Campinas, Belo Horizonte, Brasília , Goiânia, São José dos Campos e Sorocaba Palestrante de alvenaria estrutural e paredes de concreto pela ABCP, Sinduscon’s e várias entidades

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