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Solução de revestimento amplamente utilizada de norte ao sul do país, a argamassa desempenha múltiplas funções quando aplicada em uma edificação. Além do efeito estético, ela exerce um papel importante para a proteção das construções, seja em fachadas ou interiores, seja quando serve de acabamento final ou é base para receber pastilhas e placas cerâmicas.

Mas quando mal projetado ou executado, o revestimento argamassado pode ser causa de uma série de patologias, como fissuras, desplacamentos e infiltrações. Tais ocorrências colocam em risco a durabilidade, a salubridade e, em casos mais graves, podem gerar acidentes graves, como a queda de partes do revestimento.

Diante da relevância desse tema, a ConstruLiga convidou especialistas para uma mesa-redonda que teve dois objetivos principais: entender as principais causas de patologias em revestimentos argamassados e, em especial, listar recomendações para evitar esses problemas que, na maioria das vezes, exigem ações corretivas de alto custo.

Realizada no começo de novembro, a mesa redonda contou com a participação de profissionais do setor, acadêmicos, pesquisadores e representantes de entidades de classe, além do mediador Eric Cozza, jornalista e CEO da ConstruLiga. São eles:

Renato Genioli Junior – Engenheiro-civil, diretor na R. Yazbek Desenvolvimento Imobiliário e coordenador-adjunto do Comitê de Tecnologia e Qualidade (CTQ) do SindusCon-SP

Cristiana Furlan Caporrino – Engenheira-civil, autora do livro “Patologia das Anomalias em Alvenarias e Revestimentos Argamassados”, (PINI, 2015) e diretora da Cálculo de Estruturas

Ercio Thomaz – Engenheiro-civil, pesquisador do Centro Tecnológico do Ambiente Construído do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas)

Mércia Bottura de Barros – Engenheira civil, professora do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Foi coordenadora do Consórcio Setorial para Inovação em Tecnologia de Revestimentos de Argamassa (Consitra)

Maurício Bernardes – Engenheiro-civil, gerente de desenvolvimento tecnológico da Tecnisa

Elza Nakakura – Engenheira química, mestre em engenharia civil, diretora da Log Gestão de Obras

Eric Cozza – Jornalista, CEO da ConstruLiga e mediador do debate

 

Confira a seguir os pontos mais importantes da conversa:

Eric Cozza – Sabemos que patologias podem ter diversas origens, desde o projeto à falta de padronização de procedimentos executivos. Na visão de vocês, onde os problemas se concentram no caso do revestimento argamassado?

Mesa Redonda Construliga (4)Mércia Bottura de Barros – A origem pode estar no projeto, na produção ou na manutenção. Começa pelo fato de que o projeto de revestimento é praticado de maneira muito restrita. Só muito recentemente começamos a ter escritórios fazendo esse tipo de trabalho, mas ainda com um grau de empirismo muito grande. Para piorar, são muitas as variáveis que interferem na produção do revestimento. Podemos citar a espessura, o material, a base, a mão-de-obra, as condições climáticas, entre outras. Há, ainda, outra falha que é a de não formarmos engenheiros civis com foco em produção. Na verdade, formamos projetistas, e isso cria algumas distorções, como o engenheiro da obra que se acha com autoridade para mudar um projeto durante a execução.

Elza Nakakura – Há vinte anos, quem decidia como a argamassa seria produzida e aplicada no canteiro era o mestre de obras. Não adiantava ter procedimentos e projeto. Ainda hoje, embora seja o responsável técnico, o engenheiro tem dificuldades para garantir que o projeto seja executado como planejado. As decisões com relação à dosagem e à aplicação da argamassa estão muito na mão do mestre, quando não estão nas mãos do servente. Isso é um passo para uma sucessão de falhas decorrentes de uma dosagem mal realizada. Na prática, o pedreiro não vai descer do balancim para refazer uma argamassa ruim. Ele ganha por produtividade.

“Embora seja o responsável técnico, o engenheiro tem dificuldades para garantir que o projeto seja executado como planejado. As decisões com relação à dosagem e à aplicação da argamassa estão muito na mão do mestre, quando não estão nas mãos do servente”.
Elza Nakakura, consultora e diretora da Log Gestão de Obras

 

Maurício Bernardes – O revestimento argamassado é muito sensível aos desvios que o operário dá lá na ponta. Quando passou pelo boom, a indústria da construção apanhou muito. A burocratização das coisas e o afastamento dos engenheiros de produção do canteiro geraram vários problemas. Hoje, a gente ainda busca resolver os passivos dessa época. Nós sabemos como fazer direito. A dificuldade era garantir isso em um momento de crescimento e mercado aquecido.

Mesa Redonda Construliga (5)Renato Genioli Junior – Temos empreendimentos dos anos 1980 nos quais foram usados procedimentos elementares e que estão, até hoje, sem quaisquer patologias. Uma diferença importante é que naquela época nós fazíamos estruturas mais rígidas, alvenarias encunhadas, etc. Também era um contexto econômico diferente. Com a inflação ata, não fazia sentido centrar esforços na redução do custo da estrutura.

Ércio Thomaz – Houve uma mudança na década de 1990 bastante forte na construção, tanto nas argamassas e nos revestimentos, quanto nas estruturas. Passamos muito rapidamente de estruturas parrudas para uma estrutura pilar-laje sem viga de borda. Como consequência tivemos uma série de fissuras em alvenarias e em revestimentos. Paralelamente houve o desenvolvimento das argamassas industrializadas que foram perdendo cal e se tornando cada vez mais duras. O bloco cerâmico, por sua vez, ficou mais liso, lembrando que quanto menos rústico for o bloco, maior é a chance de termos problemas de aderência. Para completar, a área ambiental das construtoras passou a recomendar a realização de chapisco com CPIII ou CPIV, por conta das certificações ambientais. Vejam, as interfaces são importantes e, por vezes, negligenciadas. As principais patologias que chegam para nossa análise envolvem o uso de argamassas com 5, 6 cm de espessura e com resistência de 15 a 18 MPa.

Mércia – A exigência de racionalização que acontece na década de 1990 foi perversa para a maioria das construtoras. É verdade que passamos a construir estruturas com maior qualidade geométrica. Mas, ao fazer isso, diminuímos as espessuras do revestimento e, consequentemente, a capacidade de absorver deformação. Daí os problemas.

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Ercio Thomaz – Houve uma evolução importante com a redução do consumo de cimento nas estruturas. Isso foi positivo, inclusive sob o aspecto ambiental. Mas faltou estudar as consequências disso e analisar como esse conjunto funcionaria. Tirar chapisco, contrapiso e argamassa da junta vertical é racionalizar ou irracionalizar? Na minha visão, o problema começa ainda nos cursos de engenharia, que trabalham com disciplinas herméticas. O aluno estuda fundação, sem ver como ela interage com a superestrutura. Ele aprende superestrutura sem pensar na alvenaria, e por aí vai.

“Houve uma mudança na década de 1990 bastante forte na construção, tanto nas argamassas e nos revestimentos, quanto nas estruturas. Passamos muito rapidamente de estruturas parrudas para uma estrutura pilar-laje sem viga de borda. Como consequência tivemos uma série de fissuras em alvenarias e em revestimentos”.
Ércio Thomaz, pesquisador do IPT

 

Bernardes – O projeto não tem condições, mesmo com o BIM, de enxergar as múltiplas situações do canteiro. Uma ação que poderia ajudar nesse sentido é fazer protótipos para o revestimento. O protótipo incorpora a visão de vários especialistas. É uma composição de vários conhecimentos. Mas também é fundamental que haja o acompanhamento posterior desse protótipo. O engenheiro de produção tem que garantir que o combinado irá acontecer. Não basta ter o projeto. Se a gente fica longe da produção, não dá certo.

Mércia – Há um case clássico analisado no Consitra de um edifício na Grande São Paulo com 40 pavimentos. Nesse empreendimento, o concreto de 60 e 80 MPa era a estrela. Mas não passou pela cabeça de ninguém que, para conseguir tal resistência, a estrutura teria zero porosidade. Para piorar foi especificado revestimento de argamassa em cima dessa estrutura que tinha uma deformação altíssima por conta da altura do edifício. Em suma, a falta de visão holística trouxe uma série de problemas e a estrutura precisou ser todinha escarificada.

Thomaz – Antes tínhamos um concreto poroso, usávamos fôrmas de madeira serrada e água como desmoldante. Hoje, é muito diferente. De fato, se a gente conseguir uma visão mais sistêmica, teremos menos problemas.

 

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Cozza – E como se consegue essa visão sistêmica?

Cristiana Furlan Caporrino – Seria importante termos projetos mais próximos da produção e das necessidades da obra. Há projetos difíceis de executar. Falta compatibilização.

Genioli – Em uma recente missão técnica do SindusCon-SP para São Francisco (EUA), visitamos construtoras que utilizam um conceito interessante para desenvolver projetos: o “big room”. Como o nome indica, consiste em colocar todos os envolvidos (projetistas, construtores, gestores) em uma sala. É muito mais do que coordenar. É fazer de modo colaborativo.

Bernardes – Quando a gente passou por esse processo de racionalização, teve um movimento equivocado do mercado de premiar o projetista por taxa de aço usada. Isso não seria ruim se os outros subsistemas fossem capazes de aguentar essa deformação. Mas não é o que ocorre na prática. O problema começa, portanto, com o briefing que passamos para o projetista. Para agravar a situação, as nossas normas técnicas são estanques. Tivemos uma obra com vários problemas de estanqueidade. Chamamos o projetista de alvenaria e ele mostrou que seu projeto atendia as normas vigentes. O mesmo ocorreu com o projetista de estruturas. Poxa, todos os projetos atendiam as exigências de suas normas, mas não funcionavam. Minha conclusão é a de que falta visão sistêmica aos projetistas.

 

“Quando a gente passou por esse processo de racionalização, teve um movimento equivocado do mercado de premiar projetista por taxa de aço usada. Isso não seria ruim se os outros subsistemas fossem capazes de aguentar essa deformação. Mas não é o que ocorre na prática”.
Maurício Bernardes, gerente de desenvolvimento tecnológico da Tecnisa

 

Cozza – Os revestimentos argamassados foram foco de um trabalho específico setorial, o Consitra (Consórcio Setorial para Inovação em Tecnológica de Revestimentos de Argamassa). Esse tipo de experiência, que é benéfico para o setor, consegue abarcar essa necessidade de visão sistêmica?

Mércia – Tem potencial, mas chegou um momento em que o foco se voltou mais ao material, para a argamassa em si. Costumo dizer que a melhor argamassa pode se transformar no pior revestimento se for usada de maneira equivocada.

Bernardes – A indústria também tem seus problemas. Para vocês terem uma ideia, a gente homologou um fornecedor de argamassa. Do momento da homologação ao uso, ou seja, em um intervalo de seis meses, o produto foi modificado. Mudou o aditivo, o tipo de areia, quem fornece o cimento etc.

Mércia – A argamassa muda, mas continua com o mesmo nome. A argamassa industrializada, quando comparada à produzida no canteiro, é mais sensível à manipulação. Se misturamos quatro minutos, em vez de seis, temos outro produto. O mesmo ocorre se ela fica esperando muito tempo para ser aplicada. Aliás, a questão do puxamento da argamassa é algo muito complicado. Porque o operário ganha por produção. Se a argamassa demora muito tempo para puxar, ele vai dar um jeitinho porque ele tem que terminar a produção do dia. Isso impacta fortemente o comportamento final do revestimento.

“A argamassa industrializada, quando comparada à produzida no canteiro, é mais sensível à manipulação. Se misturamos quatro minutos, em vez de seis, temos outro produto”
Mércia Bottura de Barros, professora do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Poli-USP

 

Cozza – Que recomendações vocês podem fazer para o mercado minimizar a ocorrência de patologias em revestimentos argamassados?

Mércia – É importante entender que muitas variáveis durante a produção interferem no desempenho da argamassa. Será que, por exemplo, usamos argamassas apropriadas para as condições de temperatura e umidade do local de aplicação? Além disso, há uma questão de procedimentos. Para o revestimento de fachadas, defendemos que sejam adotadas pelo menos duas subidas e duas descidas de balancim. Isso é fundamental porque é preciso lavar a fachada e não dá para fazer isso subindo. Seria primordial conscientizar a empreiteira que, em um mundo ideal, deveria ser especializada e formada para fazer esse tipo de serviço. Se houvesse um tecnólogo ou um técnico de edificações dentro dessas empresas, seria muito bom.

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Bernardes – Acho que vale a pena contratar um encarregado específico para controlar e fiscalizar o revestimento durante a execução da fachada. É um investimento relativamente baixo considerando os problemas que pode evitar. Também seria importante termos algum curso de formação para as equipes de campo, para aproximar o conhecimento técnico sobre os revestimentos argamassados das pessoas que irão executá-lo.

Thomaz – A argamassa projetada, na minha visão, surge como uma tendência. Mas ela só vai funcionar se o construtor puder contar com uma assistência técnica boa sobre os equipamentos de projeção.

Mércia – Em especial com relação ao revestimento de fachada, ainda que faça um revestimento com as melhores técnicas, é importante garantir que ações de manutenção aconteçam. Nem sempre um revestimento deteriorado indica uma patologia. Às vezes é falta de manutenção. Não podermos perder isso de vista.

 

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